Ronco e apneia do sono: como o dentista pode ajudar com o aparelho intraoral
Quase toda semana alguém me conta a mesma cena: dormiu oito horas, acordou moído, e o cônjuge já reclamou do ronco no café da manhã. Muita gente trata isso como piada de família. Só que ronco alto e sono que não descansa costumam ser o aviso de algo maior — a apneia obstrutiva do sono. E, sim, o dentista tem um papel nessa história.
Ronco nem sempre é só ronco
O ronco acontece quando o ar passa apertado pela garganta e faz os tecidos moles vibrarem. Na apneia obstrutiva do sono, essa passagem chega a fechar de vez por alguns segundos, várias vezes por noite. O cérebro percebe a falta de ar, dá um “puxão” para acordar um pouquinho, você volta a respirar — e nem lembra de nada disso pela manhã.
O resultado é um sono picotado. Daí vem o cansaço que não passa, a dor de cabeça matinal, a irritação fácil, a memória que falha e aquela vontade de cochilar no meio da tarde. A longo prazo, a apneia não tratada está associada a pressão alta, arritmias e outros problemas cardiovasculares.
E não é raro. Um estudo populacional feito em São Paulo, o EPISONO, encontrou apneia obstrutiva em cerca de um terço dos adultos avaliados. Ou seja: provavelmente tem gente na sua casa nessa estatística.
Por que o dentista entra nessa conversa
Porque o problema é anatômico e acontece dentro da boca e da garganta — território que a gente examina todo dia. Existe uma área chamada odontologia do sono justamente para isso.
Na cadeira, alguns sinais chamam minha atenção: desgaste nos dentes por bruxismo, língua com marcas dos dentes nas laterais, palato mole muito baixo, amígdalas grandes, mandíbula pequena ou retraída, garganta apertada quando peço para abrir a boca. Nenhum desses sinais fecha diagnóstico sozinho, mas juntos acendem a luz amarela.
Quando isso acontece, eu converso, faço algumas perguntas sobre sono e encaminho para avaliação médica com exame de sono, a polissonografia. O diagnóstico de apneia é do médico. O que eu faço é identificar o risco e, depois, executar uma parte do tratamento.
Como funciona o aparelho intraoral
O dispositivo mais usado é o aparelho de avanço mandibular. Ele parece uma placa dupla, encaixa nos dentes de cima e de baixo e mantém a mandíbula levemente projetada para a frente durante a noite.
A lógica é simples: quando a mandíbula avança, a base da língua e os tecidos da garganta vão junto. A via aérea ganha espaço e o ar passa com menos turbulência. Menos vibração, menos ronco, menos episódios de obstrução.
Alguns detalhes fazem diferença:
Feito sob medida, a partir de moldagem ou escaneamento dos seus dentes. Aparelho pronto de farmácia não é a mesma coisa.
Regulável. O avanço é conquistado aos poucos, milímetro a milímetro, nas consultas de ajuste.
Prático. É silencioso, não usa energia, cabe na palma da mão e viaja fácil. Para quem odeia máquina, isso pesa muito na adesão.
Aparelho ou CPAP?
Essa pergunta aparece sempre, então vou direto: o CPAP, aquela máscara com fluxo de ar, continua sendo o tratamento mais eficaz, principalmente nos casos graves. As diretrizes conjuntas da Academia Americana de Medicina do Sono e da Academia Americana de Odontologia do Sono são claras nisso.
Mas eficácia no papel só vale se a pessoa usar. E tem paciente que não se adapta à máscara de jeito nenhum. Nesses casos — e também no ronco primário e na apneia leve a moderada — o aparelho intraoral é uma alternativa reconhecida e com boa evidência. As mesmas diretrizes recomendam que ele seja indicado por um médico do sono e confeccionado por um dentista habilitado, sempre no modelo sob medida e ajustável.
Resumindo o que digo no consultório: o melhor tratamento é o que você consegue usar todas as noites.
Efeitos colaterais existem, e eu prefiro falar deles
Nas primeiras semanas é comum sentir salivação aumentada ou boca seca, incômodo nos dentes ao acordar e uma sensação de mordida estranha que costuma passar em alguns minutos pela manhã. Isso normalmente melhora com o tempo e com ajustes.
O ponto que exige acompanhamento de verdade é outro: o uso prolongado pode mover dentes. Revisões da literatura mostram tendência de os incisivos superiores inclinarem para dentro e os inferiores para fora, com redução da sobressaliência e da sobremordida. São mudanças pequenas, geralmente sem sintoma, mas progressivas.
Por isso eu insisto em revisões periódicas, com registro da mordida e comparação ao longo do tempo. Também avalio articulação e músculos, já que um pequeno grupo de pacientes sente desconforto na ATM. Dá para manejar quase tudo, desde que alguém esteja olhando.
Como é o passo a passo
Conversa e exame clínico. Histórico de sono, ronco, sonolência diurna e avaliação da boca e da via aérea.
Encaminhamento médico. Exame de sono para confirmar o diagnóstico e a gravidade.
Planejamento. Checagem da saúde dos dentes, gengivas e articulação. Cárie, doença periodontal ou dentes sem suporte precisam ser resolvidos antes.
Moldagem ou escaneamento e confecção do aparelho.
Instalação e titulação. Avanço gradual, sempre buscando o menor avanço que resolve com o maior conforto possível.
Reavaliação. Em muitos casos o médico solicita novo exame de sono com o aparelho em uso.
Manutenção. Revisões regulares e higiene diária do dispositivo.
O que ajuda além do aparelho
Perder peso quando há excesso, evitar álcool à noite, cuidar da obstrução nasal e não dormir de barriga para cima fazem diferença real. Não substituem o tratamento, mas somam bastante.
Perguntas frequentes
Todo mundo que ronca tem apneia?
Não. Existe o ronco primário, sem paradas respiratórias. Só o exame de sono diferencia com segurança.
O aparelho incomoda para dormir?
Nos primeiros dias, sim, é estranho. A maioria se adapta em uma ou duas semanas.
Serve para bruxismo também?
São coisas diferentes, com aparelhos diferentes. Às vezes andam juntas e o planejamento precisa considerar as duas.
Posso comprar um pronto pela internet?
Não recomendo. Sem ajuste individual, o risco de dor, movimentação dentária e resultado nulo é grande.
E crianças que roncam?
Merecem avaliação. Em criança, a causa costuma ser outra, como amígdalas e adenoide, e o caminho passa pelo otorrino.
Vale investigar
Se você ronca alto, acorda cansado ou já ouviu de alguém que “para de respirar” dormindo, vale investigar. Na Onne Odontologia, em Águas Claras, faço a avaliação da via aérea e da saúde bucal, oriento sobre o exame de sono e, quando indicado, planejo o aparelho intraoral junto com o médico responsável. Agende uma conversa: dormir bem muda o resto do dia.

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