Dente trincado ou fraturado: o que fazer e quais os tratamentos
Mordeu um pão mais durinho e sentiu uma fisgada rápida que sumiu logo em seguida? Ou reparou numa linha fina cruzando o dente, que antes não estava ali? Trinca e fratura no dente estão entre as queixas que mais aparecem no meu consultório, e quase sempre vêm acompanhadas da mesma pergunta: “isso é grave, doutor?”. A resposta sincera é: depende. Um dente pode trincar de um jeito simples, que só pede acompanhamento, ou de um jeito que compromete a raiz inteira. Aqui eu explico como diferenciar, o que fazer na hora e quais são os caminhos de tratamento.
Trincado, lascado ou quebrado: por que a palavra importa
No dia a dia, o paciente usa esses termos como se fossem a mesma coisa — e tudo bem, faz sentido. Mas, para quem vai tratar, a profundidade e a direção da trinca mudam completamente o plano. Uma lasquinha só no esmalte é uma história. Uma trinca que caminha para dentro do dente, em direção à raiz, é outra bem diferente. Por isso o primeiro passo nunca é sair restaurando: é entender que tipo de dano a gente está enfrentando.
Os tipos de trinca e fratura
A Associação Americana de Endodontia organiza as trincas em cinco tipos. Traduzindo para uma linguagem de consultório:
Linhas de fissura: microfissuras que ficam só no esmalte. São super comuns, praticamente todo adulto tem, e na maioria das vezes são inofensivas — mais uma questão estética do que de saúde.
Cúspide fraturada: quando uma “pontinha” do dente se solta. Acontece muito em dentes que já têm restaurações grandes e antigas enfraquecendo a estrutura.
Dente trincado: a trinca parte da coroa e caminha para dentro do dente. É a clássica “síndrome do dente trincado”, aquela que dói ao morder e é difícil de flagrar.
Dente partido: quando a trinca evoluiu e chegou a dividir o dente em partes. Aqui o prognóstico já é mais reservado e nem sempre dá para salvar tudo.
Fratura vertical da raiz: começa lá na raiz e sobe. Costuma ser a mais complicada e, com frequência, acaba levando à extração.
Por que os dentes trincam
Raramente é uma causa só. Na maioria dos casos, é uma soma de fatores agindo ao longo do tempo. O bruxismo — aquele ranger e apertar os dentes, muitas vezes durante o sono — é um dos maiores vilões, porque coloca uma carga enorme sobre os dentes noite após noite. Some a isso o hábito de mastigar gelo, roer caneta ou abrir embalagem com os dentes, e a conta chega. Restaurações grandes e antigas também deixam o dente mais frágil, assim como dentes que já passaram por tratamento de canal e ficaram mais “secos”. E, claro, um trauma direto, uma pancada num acidente ou no esporte, resolve o assunto em um segundo.
Como sei que meu dente trincou?
Confesso que essa é uma das coisas mais difíceis de diagnosticar em odontologia. Estima-se que a síndrome do dente trincado atinja cerca de 5% dos adultos por ano, e muita gente convive com o incômodo por meses sem descobrir a origem. O sinal mais típico é uma dor aguda ao morder — e, curiosamente, ela costuma aparecer no momento em que você alivia a mordida, não quando aperta. Sensibilidade ao frio ou ao doce que vai e volta também acende o alerta. Em alguns casos, a trinca não dá sintoma nenhum, e só aparece num exame de rotina. Por isso, se algo parece “estranho” num dente específico, não custa investigar.
O que fazer na hora
Se você quebrou ou trincou um dente agora, alguns cuidados simples ajudam até chegar ao dentista:
Enxágue a boca com água morna para limpar a região.
Se houver inchaço, use uma compressa fria por fora do rosto, em intervalos de cerca de 15 minutos, sempre com um paninho protegendo a pele.
Se estiver sangrando, faça uma leve pressão com gaze limpa.
Guardou o pedaço que soltou? Coloque no leite ou em soro fisiológico e leve com você.
Um analgésico comum, como paracetamol ou ibuprofeno, seguindo a bula, pode aliviar a dor.
Evite mastigar do lado afetado até ser avaliado.
Marque o dentista o quanto antes — quanto mais cedo, mais opções de tratamento.
Como é o tratamento
Não existe uma resposta única, e é justamente por isso que o diagnóstico correto importa tanto. Fraturas leves, que atingem só o esmalte ou um pouco da dentina, muitas vezes se resolvem com uma restauração em resina. Quando a trinca é mais significativa, a coroa costuma ser a melhor saída: ela “abraça” o dente e distribui a força da mastigação, evitando que a trinca se abra ainda mais. Vale saber que estudos mostram que colocar uma coroa em dentes trincados melhora bastante o prognóstico a longo prazo. Se a trinca chegou até a polpa (o nervo do dente), pode ser necessário tratamento de canal antes da coroa. E, nos casos mais graves, como a fratura vertical da raiz, às vezes não há como salvar — aí entramos na conversa sobre extração e reposição, seja com implante ou ponte.
Dá para prevenir?
Boa parte das trincas dá, sim, para evitar com hábitos simples:
Se você range ou aperta os dentes, uma placa de bruxismo faz toda a diferença.
Pratica esporte de contato? Protetor bucal, sempre.
Corte o hábito de roer gelo, caneta ou abrir embalagem com os dentes.
Fique de olho em restaurações antigas e grandes — trocá-las na hora certa protege o que sobrou do dente.
Mantenha as consultas de rotina: é nelas que a gente pega a trinca ainda pequena.
Perguntas frequentes
Dente trincado sempre precisa de canal?
Não. O canal só entra quando a trinca atinge a polpa. Muitos dentes trincados são resolvidos apenas com restauração ou coroa, sem mexer no nervo.
A trinca pode “colar” sozinha?
Infelizmente não. Esmalte e dentina não se regeneram como um osso. Por isso a trinca tende a avançar se não for cuidada.
Se não está doendo, posso esperar?
Não é o ideal. Uma trinca silenciosa ainda pode piorar a cada mordida. Avaliar cedo quase sempre significa um tratamento mais simples.
Ficou com alguma dúvida?
Se você desconfia de uma trinca ou já sentiu aquela fisgada ao morder, vale a pena avaliar antes que o problema cresça. Na consulta consigo examinar o dente com mais recursos e indicar o melhor caminho para o seu caso específico. Se quiser, agende uma avaliação e a gente cuida disso com calma, juntos.


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