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Erosão dental: como o ácido desgasta o esmalte sem você perceber

Foto do escritor: Dr. Evandro Osterne Filho
Dr. Evandro Osterne Filho
19 de ago.
4 min de leitura

Tem um tipo de dano no dente que quase ninguém percebe acontecendo. Não dói no começo, não faz buraco, não aparece de repente. Só um dia o paciente senta na cadeira e me diz que os dentes da frente estão "ficando transparentes na ponta" — e aí a gente descobre que faz anos que o ácido vem raspando o esmalte devagar.

Isso é erosão dental. E é bem mais comum do que se imagina.

O que é erosão dental, afinal

Cárie é bactéria produzindo ácido em cima de um ponto específico. Erosão é diferente: o ácido chega pronto, de fora ou de dentro do corpo, e dissolve a superfície do esmalte de forma ampla, sem bactéria envolvida.

O resultado não é um buraco. É um desgaste espalhado. O dente vai ficando mais fino, mais liso, às vezes com um brilho estranho, e a borda dos incisivos ganha aquela translucidez azulada. Em dentes de trás, aparecem depressões arredondadas no meio da face de mastigação, como se alguém tivesse cavado com uma colherinha.

E não é raro. Levantamentos internacionais estimam desgaste erosivo em algo entre 20% e 45% dos adultos, com números ainda maiores em algumas populações. É muita gente.

De onde vem esse ácido

Ácido que entra pela boca

Refrigerante é o suspeito clássico, incluindo os zero açúcar — o problema aqui é o ácido, não o açúcar. Mas a lista é maior: suco de limão e de laranja, energéticos, isotônicos de treino, chás gelados industrializados, água com gás saborizada, vinagre em excesso, balas azedas.

Reparei que muitos pacientes se surpreendem com essa parte. "Mas eu tomo água com limão em jejum todo dia, é saudável." Para o corpo, talvez. Para o esmalte, é banho de ácido diário em jejum, sem saliva suficiente para neutralizar.

Ácido que vem de dentro

O suco gástrico é muito mais agressivo que qualquer refrigerante. Refluxo — inclusive o refluxo silencioso, que acontece de madrugada sem azia perceptível — desgasta principalmente a face interna dos dentes superiores.

Estudos apontam erosão dentária em cerca de um quarto dos pacientes com doença do refluxo. Vômitos repetidos, seja por gestação, por medicação ou por transtornos alimentares, produzem o mesmo tipo de dano.

Já encaminhei pacientes ao gastroenterologista partindo apenas do padrão de desgaste que vi na boca. O dente às vezes conta antes do estômago.

O agravante: pouca saliva

A saliva é o sistema de defesa natural. Ela dilui, neutraliza e ajuda a repor mineral. Quem tem boca seca por medicamento, respira pela boca ou treina muito e desidrata perde essa proteção justamente quando mais precisa.

Sinais para ficar de olho

  • Sensibilidade a frio ou a doce que apareceu e foi piorando

  • Bordas dos dentes da frente ficando finas e translúcidas

  • Dentes com aparência mais amarelada — é a dentina aparecendo sob o esmalte gasto

  • Restaurações antigas que parecem "mais altas" que o dente ao redor

  • Dentes que ficam lisos e brilhantes demais, sem as texturas naturais

Se você se reconheceu em dois ou mais desses itens, vale marcar uma avaliação. Erosão em estágio inicial é muito mais fácil de segurar do que reconstruir dente desgastado.

O que realmente ajuda

Mexer na frequência, não só na quantidade

Aqui está o ponto que mais muda o resultado. Não é o volume total de bebida ácida que importa mais — é quantas vezes por dia o esmalte fica exposto.

Uma lata de refrigerante tomada de uma vez, no almoço, causa muito menos dano que a mesma lata bebericada ao longo de três horas de trabalho. Cada gole reinicia o ataque ácido. Por isso oriento: concentre no horário da refeição, beba de forma rápida, e se puder use canudo.

Não escove logo depois

Esse detalhe surpreende quase todo mundo. Logo após o contato com ácido, o esmalte fica temporariamente amolecido. Escovar nesse momento remove mineral que ainda poderia ser recuperado.

Enxágue a boca com água, ou tome um pouco de leite, e espere. A saliva faz o trabalho de reendurecer a superfície. A escovação pode esperar meia hora ou mais.

Usar o que remineraliza

Pasta com flúor é básica e funciona. Em casos mais avançados eu indico produtos de maior concentração, aplicações no consultório e às vezes cremes com cálcio e fosfato. Chiclete sem açúcar depois das refeições também ajuda, porque aumenta o fluxo de saliva.

Tratar a causa de verdade

De nada adianta trocar o refrigerante por suco de limão. E se a origem é refluxo, o tratamento tem que ser médico — eu posso proteger o dente, mas não resolvo o estômago.

E quando o dente já está desgastado?

Depende do quanto se perdeu. Em desgaste leve, muitas vezes o plano é monitorar com fotos e modelos, controlar a causa e reforçar o flúor.

Quando há perda estrutural com sensibilidade ou prejuízo estético, entram resinas para devolver forma e proteção, e em situações mais avançadas, coroas ou facetas. Quando o desgaste comprometeu a altura da mordida, o planejamento fica mais complexo e envolve reorganizar toda a oclusão.

O que não dá é reconstruir sem antes desligar a torneira do ácido. Restauração feita em ambiente ácido descolado volta a falhar.

Perguntas frequentes

Refrigerante zero também causa erosão?

Sim. O ácido fosfórico e o cítrico continuam lá. A ausência de açúcar reduz o risco de cárie, não o de erosão.

Esmalte desgastado volta a crescer?

Não. Esmalte não se regenera. Dá para remineralizar a camada mais superficial quando o dano é inicial, mas o que se perdeu de estrutura só se repõe com material restaurador.

Clareamento piora?

Em dente com erosão ativa e sensibilidade, eu costumo tratar a erosão primeiro. Depois avaliamos o clareamento com calma.

Escovar com mais força limpa melhor?

Pelo contrário. Força excessiva, sobre esmalte já fragilizado, acelera o desgaste. Escova macia e movimento leve.

Um convite

Erosão dental é daquelas condições em que agir cedo faz uma diferença enorme — e em que esperar custa caro, literalmente.

Se você percebeu sensibilidade nova, bordas finas ou tem refluxo diagnosticado, agende uma avaliação. Dá para identificar o padrão de desgaste, entender de onde vem o ácido no seu caso e montar um plano para frear isso antes que exija tratamento grande.

 
 
 

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